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Trilha 01 · Fundamentos de processos

AS-IS, TO-BE e melhoria

O AS-IS mostra como o trabalho acontece hoje; o TO-BE mostra como vai acontecer depois. A diferença entre os dois é o valor que você entrega ao cliente — e precisa ser explicável em uma frase.

AS-IS: como é de verdade

O AS-IS é o retrato do processo atual. A palavra importante é atual: não o que está no manual, não o que o diretor acha que acontece, mas o que as pessoas fazem de fato, com os atalhos, planilhas paralelas e “jeitinhos”.

Por que isso importa

Por que gastar tempo desenhando algo que você vai mudar? Por três motivos:

  1. Descobrir as regras escondidas. “Ah, quando é cliente PJ a gente pede também o contrato social” — isso só aparece quando você mapeia o real.
  2. Ter linha de base. Sem saber quanto tempo leva hoje, você não prova que melhorou.
  3. Ganhar a confiança da operação. Quem executa o processo se sente ouvido. Isso reduz muito a resistência na implantação.

Como coletar o AS-IS

  1. Entreviste quem executa, não só os chefes. Peça: “me mostre como você faz, no seu computador”.
  2. Siga um caso real do começo ao fim (um pedido, um requerimento). Pergunte onde ele estava a cada dia.
  3. Colete os artefatos: formulários, planilhas, modelos de e-mail, checklists. Cada coluna de planilha é um campo de formulário em potencial.
  4. Pergunte pelas exceções: “e quando dá errado?”, “e quando o cliente não manda o documento?”. É nas exceções que mora a dor.
  5. Desenhe em BPMN descritivo, com raias por área, sem se preocupar ainda com a execução.
  6. Valide com quem executa. Mostre o desenho e pergunte “é assim mesmo?”. Ajuste até ouvir “é”.
Atenção

O erro mais caro é mapear o processo do manual ou da cabeça do gestor. Quando o sistema entra em produção, a operação descobre que “não era bem assim” — e a culpa cai na ferramenta.

Analisar: onde está o problema

Com o AS-IS em mãos, procure sistematicamente:

O que procurar Pergunta Sinal típico
Espera Onde o caso fica parado? “Fica na mesa do diretor até ele ter tempo”
Retrabalho Onde algo volta para trás? Setas que retornam no diagrama
Passagens Quantas vezes muda de mãos? Muitas raias cruzadas
Duplicidade Quem digita a mesma informação duas vezes? “Copio do e-mail para o ERP”
Regra implícita Quais decisões dependem de alguém saber? “Só a Ana sabe quando precisa do jurídico”
Falta de prazo O que não tem limite de tempo? “Depende”
Risco Onde um erro custa caro (multa, ação, perda)? Prazos legais, documentos vencidos
Dica de consultor

A espera é quase sempre o maior desperdício. Em processos administrativos é comum que o caso passe mais de 90% do tempo parado, aguardando alguém. Por isso automatizar a passagem (a tarefa aparece na caixa certa, com prazo e aviso) costuma gerar mais ganho do que acelerar qualquer atividade individual.

TO-BE: como será

O TO-BE é o processo redesenhado. Ele não é “o AS-IS dentro do sistema”. As alavancas clássicas de redesenho:

Eliminar

Tirar o que não agrega

Aprovações redundantes, conferências duplicadas, cópias de documento.

Paralelizar

Fazer junto o que é independente

Exame admissional, coleta de documentos e criação de acessos ao mesmo tempo (gateway paralelo).

Antecipar

Pedir tudo no começo

Coletar e validar documentos na abertura evita devolução na etapa 5.

Regrar

Tirar decisões da cabeça

Alçadas e exigências viram tabela DMN que qualquer pessoa lê e o sistema aplica.

Prazo

Todo trabalho com limite

Prazo em dias úteis, aviso antes de vencer, escalonamento quando vence.

Integrar

Não redigitar

Dados que vêm do ERP iniciam o processo; o resultado volta para o ERP.

Exemplo: pedido de compra

No AS-IS do cliente, todo pedido de compra passava pelo gestor e depois pelo diretor, por e-mail. No TO-BE, uma regra decide: até R$ 5 mil vai direto para Compras; acima disso, o gestor analisa. Clique nos elementos.

Por que isso importa

Repare que o TO-BE deixou o gestor com menos trabalho. Bons redesenhos costumam fazer isso: tiram das pessoas mais qualificadas o trabalho que não exige a qualificação delas. É um argumento de venda poderoso.

Documentar a diferença

Para cada mudança entre AS-IS e TO-BE, registre:

Mudança Problema que resolve Indicador que deve melhorar
Alçada de R$ 5 mil Gestor sobrecarregado; pedidos pequenos esperando dias Tempo médio de pedidos pequenos
Formulário com campos obrigatórios Pedidos incompletos devolvidos % de pedidos devolvidos
Tarefa com prazo de 2 dias úteis Pedidos esquecidos % aprovados no prazo

Essa tabela vira o argumento de aprovação do TO-BE com o patrocinador e a base do relatório de resultados depois do go-live.

No setor público

No setor público, toda mudança de etapa precisa ser confrontada com a norma. Eliminar uma etapa de parecer pode ser ilegal se ela estiver prevista em lei ou regulamento. Inclua o jurídico ou o controle interno na validação do TO-BE e registre a base legal de cada etapa (dica: use anotações de texto no próprio diagrama).

Resumo

  • AS-IS é o processo real de hoje, coletado com quem executa, incluindo exceções.
  • Analise espera, retrabalho, passagens, duplicidade, regras implícitas, prazos e riscos.
  • TO-BE usa alavancas: eliminar, paralelizar, antecipar, regrar, prazo, integrar.
  • Documente cada mudança com o problema que resolve e o indicador que deve melhorar.
QuizVerifique seu entendimento0/4 respondidas · 0 certas
1.Quem deve ser a principal fonte do AS-IS?
2.Qual costuma ser o maior desperdício em processos administrativos?
3.Coleta de documentos, exame admissional e criação de acessos são independentes. Qual alavanca aplicar?
4.Por que registrar o indicador que cada mudança deve melhorar?