AutoflowGuia do implantador
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Trilha 09 · Método de implantação

Fase 3: descoberta e entrevistas

Descobrir como o processo funciona de verdade é uma habilidade que se treina. Esta lição ensina técnicas de entrevista, roteiros por papel, como conduzir um workshop de mapeamento e como traduzir o que o cliente diz em elementos BPMN.

O objetivo da descoberta

Ao fim da descoberta você precisa saber, para o processo escolhido: o que o dispara, quais etapas existem, quem faz cada uma, que informações e documentos circulam, que decisões são tomadas e com que regras, quais prazos valem, quais exceções acontecem e onde estão os problemas. Esse é o AS-ISAS-IS — Como o processo funciona hoje, de verdade (não como deveria funcionar)..

Por que isso importa

O manual, o organograma e o gestor descrevem o processo como deveria ser. Quem executa conhece o processo como é: os atalhos, as planilhas paralelas, o “quando é urgente eu ligo para a Fulana”. As exceções são onde mora a dor — e são exatamente o que o Autoflow precisa tratar para o sistema ser adotado.

Técnicas de entrevista

Perguntas abertas, não fechadas

Pergunta fechada (“vocês conferem o CPF?”) recebe “sim” e acaba. Pergunta aberta (“o que você faz quando o pedido chega?”) recebe uma história, e a história tem os detalhes.

Em vez de… Pergunte…
“Vocês aprovam pedidos acima de 5 mil?” “Como se decide quem aprova um pedido?”
“O prazo é 10 dias?” “Quanto tempo leva, normalmente? E quando atrasa, por quê?”
“Vocês usam o ERP?” “Onde você registra isso? Me mostra?”

“Me mostre”

Peça para a pessoa abrir a tela, a planilha, a pasta de e-mails e fazer um caso real na sua frente. Você vai ver campos que ninguém mencionou, cópias que ninguém lembra de fazer e o tempo real gasto.

Caçar exceções

Depois que a pessoa descreve o caminho feliz, pergunte sistematicamente:

  • “E quando falta um documento?”
  • “E quando o gestor está de férias?”
  • “E quando o cliente desiste no meio?”
  • “Qual foi o caso mais difícil do último mês?”
  • “O que acontece se ninguém fizer nada?”

Cada resposta é um candidato a gateway, evento de borda ou fim alternativo.

Os 5 porquês

Quando aparecer um problema, pergunte “por quê?” até chegar à causa. Exemplo:

  1. “O reembolso atrasa.” Por quê?
  2. “Porque o financeiro devolve o pedido.” Por quê?
  3. “Porque falta a nota fiscal.” Por quê?
  4. “Porque o colaborador manda a foto do cupom, não a nota.” Por quê?
  5. “Porque ninguém diz a ele qual documento vale.” → Causa: falta de regra clara de documentos. Solução no Autoflow: um requisito de documentos com o tipo certo e descrição clara, coletado na abertura.
Dica de consultor

Anote literalmente frases fortes do entrevistado (“eu fico caçando o processo no e-mail”). Elas são ótimas para a apresentação ao patrocinador e para o treinamento: mostram que o sistema resolve uma dor real, dita pelos próprios usuários.

Roteiro de entrevista por papel

Entreviste ao menos três perspectivas: quem executa, quem gerencia e quem recebe o resultado. Cada entrevista dura de 45 a 60 minutos.

Executor (quem faz)

  1. Descreva o último caso que você tratou, do começo ao fim.
  2. Como o trabalho chega até você? Como você sabe que tem algo para fazer?
  3. O que você precisa ter em mãos para fazer sua parte? Onde busca?
  4. Para quem você passa depois? Como avisa?
  5. O que faz você devolver um caso? Com que frequência?
  6. Quanto tempo leva sua parte? E quanto tempo o caso fica parado esperando?
  7. Se pudesse mudar uma coisa, o que mudaria?

Gestor

  1. Qual o resultado esperado deste processo? Como você sabe que foi bem feito?
  2. Que decisões você toma? Com base em quê? Isso está escrito em algum lugar?
  3. Como você acompanha hoje o que está atrasado?
  4. Quem pode substituir quem? E nas férias?
  5. Que indicadores você gostaria de ter e não tem?

Cliente do processo (interno ou externo)

  1. O que você pede e o que espera receber?
  2. Quanto tempo espera, em média? Quanto acharia razoável?
  3. Como fica sabendo do andamento?
  4. Que documentos te pedem? Te pedem mais de uma vez?
No setor público

Em órgão público, o “cliente” é frequentemente o cidadão. Se não for possível entrevistá-lo, leia reclamações da ouvidoria, pedidos de informação e manifestações registradas. Elas mostram exatamente onde o processo falha do ponto de vista de quem é atendido.

Conduzindo um workshop de mapeamento

Depois das entrevistas individuais, reúna de 4 a 8 pessoas das áreas envolvidas por 2 a 3 horas. O objetivo é montar o AS-IS juntos e resolver as contradições entre as versões ouvidas.

  1. Prepare o quadro Em uma parede ou quadro digital, desenhe uma raia por área. Tenha post-its de três cores: etapas (amarelo), decisões (rosa), problemas (vermelho).
  2. Fixe início e fim Escreva o gatilho na esquerda e os resultados possíveis na direita. Combine com o grupo antes de detalhar o meio.
  3. Construa o caminho feliz Peça ao grupo as etapas em ordem, verbo + objeto (“Conferir documentos”). Cada post-it na raia de quem faz.
  4. Acrescente decisões e exceções Para cada etapa, “o que pode dar errado aqui?”. Cada resposta vira um post-it rosa e um caminho alternativo.
  5. Marque problemas Post-its vermelhos onde há atraso, retrabalho, perda de informação.
  6. Valide Percorra o quadro em voz alta, como se fosse um caso real. Ajuste até ninguém discordar.
  7. Fotografe e digitalize No mesmo dia, passe para BPMN e envie ao grupo para validação.
Atenção

Não leve o diagrama BPMN pronto para o workshop. As pessoas tendem a concordar com o que está desenhado bonito. Post-its convidam a mexer.

O canvas de descoberta

O canvas reúne em uma página tudo o que você descobriu: SIPOC (fornecedores, entradas, processo, saídas, clientes), regras, documentos, prazos, sistemas, problemas e indicadores. Ele força você a não esquecer nenhuma dimensão — e gera um esqueleto BPMN executável que já pode ser importado no editor do Autoflow.

No Autoflow

No esqueleto gerado, quem faz cada etapa vira pos:CARGO (grupo candidato) ou ${initiator} (o próprio iniciador). Etapas de documentos saem marcadas para você trocar pelo bloco Solicitação de documentos. Para importar: Administração › Modelagem › Fluxos › Novo fluxo, depois Importar .bpmn.

Do que o cliente diz ao que você modela

Esta é a habilidade central do consultor de processos. Com o tempo, você vai ouvir as frases abaixo e já enxergar o elemento BPMN correspondente.

O cliente diz… Você modela… No Autoflow
“Começa quando o cliente faz o pedido” Evento de início nomeado Início com formulário de abertura
“A Maria confere e passa para o João” Duas tarefas de usuário Cada uma com o cargo como grupo candidato
“Se for acima de 5 mil, vai para o diretor” Gateway exclusivo com fluxo padrão Ou uma regra DMN de alçada que devolve o cargo
“Enquanto o RH faz o cadastro, a TI cria o acesso” Gateway paralelo (abre e fecha) Duas tarefas em paralelo
“Precisa da CNH e do comprovante de endereço” Coleta de documentos Bloco Solicitação de documentos + requisito
“Se não responder em 48h, a gente cobra” Prazo de borda não interruptivo Timer na borda + tarefa de cobrança
“O prazo é de 15 dias úteis” Cálculo de prazo Bloco Calcular prazo (dias úteis) + prazo da tarefa
“A gente manda para o despachante e espera o retorno” Envio + espera Blocos Enviar a sistema externo e Aguardar retorno externo
“Às vezes o cliente desiste” Fim alternativo nomeado Fim “Cliente desistiu”, com gateway antes
“Volta para quem pediu corrigir” Fluxo de retorno Tarefa de correção para ${initiator} e volta ao ponto de revisão
“Depende do tipo: PF pede uns documentos, PJ outros” Regra que escolhe itens Regra DMN COLLECT + “Itens a pedir” na Solicitação de documentos

O AS-IS em BPMN

Com o canvas e o workshop, desenhe o AS-IS em BPMN no nível descritivo: raias por área, tarefas genéricas, decisões principais, problemas marcados com anotações de texto. Não se preocupe ainda com formulários ou expressões. Valide com o dono do processo e o usuário-chave; a versão validada é o entregável da fase.

Dica de consultor

Use raias no AS-IS: elas mostram visualmente o “pingue-pongue” entre áreas, que é um dos argumentos mais fortes para a mudança. Lembre-se de que, no Autoflow, a raia é só visual — o responsável real é configurado em cada tarefa na fase de modelagem.

Resumo

  • A descoberta revela o processo real, inclusive exceções e atalhos que não estão no manual.
  • Use perguntas abertas, peça “me mostre”, cace exceções e aplique os 5 porquês nos problemas.
  • Entreviste executor, gestor e cliente do processo; em órgão público, use a ouvidoria como voz do cidadão.
  • O workshop com post-its constrói o AS-IS em conjunto e resolve contradições.
  • O canvas de descoberta reúne tudo em uma página e gera um esqueleto BPMN importável.
  • Treine a tradução “frase do cliente → elemento BPMN → configuração no Autoflow”.
QuizVerifique seu entendimento0/4 respondidas · 0 certas
1.O executor diz: "quando o diretor está viajando, a gerente aprova no lugar dele". Como tratar isso?
2.Qual pergunta é mais eficaz para descobrir exceções?
3.O cliente diz "se não responder em 48 horas, a gente cobra, mas continua esperando a resposta". Qual elemento?
4.Por que não levar o BPMN pronto para o workshop?